
Jevons Weekly
Edição #002 · 27 out 2026
Semana de 19 a 26 out 2026 · 6 min de leitura · Startups, IA e tecnologias de fronteira pela ótica do investidor
A leitura Jevons
O token ficou 25% mais barato em quatro semanas, e as empresas compraram 52% a mais. O gasto subiu só 23%. É o paradoxo de Jevons em uma linha. A dúvida é quem paga a conta: 80,4% dos maiores compradores de IA têm venture capital. A partir desta edição, a gente acompanha esse número.
Startups e seus negócios

Imagem: Jevons Weekly. Dados: Tenstorrent, TechCrunch, SpaceNews, PR Newswire
Tenstorrent capta US$ 1,5 bi e vale US$ 6,2 bi

Imagem: Tenstorrent
A empresa de chips de Jim Keller fechou uma Série E de US$ 1,5 bi a US$ 6,2 bi pós-money, mais que o dobro dos US$ 2,6 bi de dezembro de 2024. Trace Capital e Innovation X lideraram, com ARK, Fidelity, T. Rowe Price, Morgan Stanley, Sandisk e Tether. Ela vende chips RISC-V e servidores Galaxy que rodam modelos abertos.
O que isso significa para o investidor
Modelo aberto mais barato pede hardware mais barato. A Tenstorrent aposta que quem compra inferência quer fugir da margem da Nvidia.
Fonte: Tenstorrent · Reuters via Investing.com
Flapping Airplanes capta US$ 1 bi, nove meses depois do seed
O laboratório de um ano levantou uma Série A de US$ 1 bi, coliderada por Index e Lux, com Sequoia, GV, Kleiner Perkins e Nvidia. O TechCrunch fala em valuation de US$ 6 bi. Nove meses antes, o seed tinha sido de US$ 180 mi a US$ 1,5 bi. A meta: modelos que aprendem com muito menos dados.
O que isso significa para o investidor
O preço quadruplicou em nove meses com base numa tese de pesquisa. Eficiência de dados ataca o maior custo da IA, e o mercado paga preço de laboratório por isso.
Fonte: TechCrunch · Index Ventures
Tractian vira unicórnio: US$ 130 mi a US$ 1,4 bi

Fundada no Brasil em 2019 e hoje com sede em Atlanta, a Tractian captou uma Série D de US$ 130 mi a US$ 1,4 bi. A Sapphire liderou e a Catalyst, da M&G, coliderou, com Monashees, General Catalyst, Bosch Ventures e Y Combinator. Sensores e IA da empresa monitoram máquinas em cerca de 2.000 plantas industriais. Os próximos passos: data centers, defesa e Europa.
O que isso significa para o investidor
O Brasil exportou os fundadores e os EUA precificaram a empresa. A entrada em data centers coloca a Tractian dentro do ciclo de capex da IA.
Fonte: PR Newswire · Tractian · BNamericas
IA
Anthropic protocola o S-1: US$ 16,3 bi de receita em seis meses

A Anthropic tornou público seu pedido de IPO em 26 de outubro. A receita chegou a US$ 16,3 bi no primeiro semestre de 2026, alta de 1.300% em um ano. A computação caiu de 251% da receita no 1º trimestre de 2025 para 48% no 2º trimestre de 2026. A retenção líquida de receita é de cerca de 900% após um ano, sem contar assinantes Pro e Max. O prejuízo líquido de US$ 80,7 bi inclui US$ 72,4 bi de ajustes contábeis sem efeito caixa em conversíveis, derivativos e SAFEs. O prejuízo operacional foi de US$ 693 mi no 1º semestre de 2026. Só no 2º trimestre, o lucro operacional GAAP foi de US$ 974 mi, margem de 8% (19% ajustada).
O que isso significa para o investidor
A conta unitária virou em um ano. O risco agora está nas nuvens: cerca de US$ 269 bi em compromissos mínimos com Google, Amazon e Microsoft, e 48% da receita no 1º semestre de 2026 passou por marketplaces de nuvem.
Fonte: SEC, S-1 da Anthropic
OpenAI busca até US$ 30 bi a US$ 1,25 tri

Segundo a CNBC, a OpenAI capta até US$ 30 bi a um valuation de US$ 1,25 tri pré-money, com investidores dos Emirados Árabes e a Coatue na liderança. O TechCrunch trata a rodada como preparação para o IPO.
O que isso significa para o investidor
Com a marcação privada nesse nível, sobra menos alta para quem comprar na abertura de capital. Quem define o preço de entrada agora é o dinheiro soberano.
Fonte: CNBC · TechCrunch
Token 25% mais barato em quatro semanas. Volume 52% maior

Imagem: Jevons Weekly. Dados: Ramp AI Index
Dados de gasto da Ramp, semana até 11 de outubro contra 13 de setembro: volume de tokens +52,4%, gasto +23,0%. O preço médio de OpenAI e Anthropic caiu de US$ 0,86 para US$ 0,64 por milhão de tokens. A fatia da Anthropic no gasto com tokens subiu de 53,8% para 60,1%. Os laboratórios chineses seguem cortando: o MiniMax M3.1 Flash custa US$ 0,15/0,60 por milhão de tokens.
O que isso significa para o investidor
O preço cai e o uso sobe mais rápido. O valor vai para quem controla o volume, e neste mês foi a Anthropic.
Quanto da receita de IA é orgânica?
Ponto de partida: 80,4% dos maiores compradores de IA têm VC

Imagem: Jevons Weekly. Dados: Apollo
Primeira leitura do nosso novo indicador recorrente. Torsten Slok, da Apollo, em 22 de outubro de 2026: 80,4% do 1% que mais gasta com IA tem venture capital, contra 13,1% entre as empresas do meio da distribuição. A Ramp acrescenta que esse 1% responde por cerca de 80% do gasto com OpenAI e Anthropic. Fora da tecnologia, a Apollo ainda não vê retorno da IA nas margens das outras 493 empresas do S&P 500.
Como lemos: o dado conta empresas, não dólares, então não convertemos em fatia da receita. Ponto de partida datado de 22 out 2026. Ainda não há leitura anterior para comparar.
O que isso significa para o investidor
Boa parte da demanda mais pesada de IA roda com dinheiro de venture capital. Se o funding desacelerar, essa demanda desacelera junto. Vamos atualizar esta leitura toda semana.
Fonte: Apollo, 22 out · Ramp · Apollo, 24 out
Da sala de aula
O que Blade Runner acertou sobre a IA
No dia 23 de outubro, João falou no LAUDCINE, no Mackenzie, em São Paulo, sobre Blade Runner (1982). Ridley Scott imaginou a mente junto com o corpo. Acertou a primeira e errou o segundo.
O filme imaginou máquinas que se movem. Chegaram máquinas que percebem, pela linguagem, sem corpo e sem rosto. Num teste de Turing de três participantes, publicado em 2025, o GPT-4.5 com persona foi julgado humano em 73% das vezes. Sem a persona: 36%.
O que isso significa para o investidor
O capital foi primeiro para a percepção: linguagem, computação, tokens. Nesta semana voltou para o corpo, com as mãos robóticas da Eka e os sensores da Tractian. O próximo ciclo financia máquinas que percebem e depois se movem.
Fonte: Jones e Bergen, 2025
Tecnologias de fronteira
Xona capta US$ 250 mi para um GPS alternativo em órbita baixa

Imagem: Xona Space Systems, via SpaceNews
A Xona Space Systems levantou uma Série D de US$ 250 mi a US$ 2,45 bi, liderada pela Future Ventures. A rodada chega no momento em que a empresa começa a lançar os satélites.
O que isso significa para o investidor
Interferência e falsificação de sinal transformaram navegação em compra de segurança. O valuation precifica uma constelação ainda em montagem, então o risco de execução segue alto.
Fonte: SpaceNews
Washington vira sócio da fusão: US$ 389 mi do CHIPS
O Departamento de Comércio assinou cartas de intenção para US$ 389 mi em verbas de P&D do CHIPS, em troca de participação sem voto. A Helion recebe até US$ 175 mi, mais US$ 50 mi de investidores privados. A Commonwealth Fusion Systems fica com até US$ 85 mi, a Vertical Semiconductor com US$ 73 mi e a Sibelco com US$ 56 mi.
O que isso significa para o investidor
O Estado agora entra como sócio em energia e materiais. Isso reduz o risco de financiamento da fusão e dá ao governo parte do ganho.
Fonte: Reuters via Investing.com · Helion
Eka Robotics: Série A de US$ 150 mi a US$ 1,45 bi para mãos robóticas

A a16z e a F-Prime lideraram uma Série A de US$ 150 mi a US$ 1,45 bi pós-money. Os fundadores Pulkit Agrawal (MIT) e Tuomas Haarnoja (ex-DeepMind) constroem um modelo de visão, força e ação para mãos robóticas hábeis.
O que isso significa para o investidor
Unicórnio já na Série A mostra quanto custa talento em IA física. O modelo lê força além da imagem, o dado que ainda falta aos robôs.
Fonte: TechCrunch · Eka Robotics
Nota de evento
Em 17 de novembro, em São Paulo, eu falo sobre como pensar investimentos na década em que a IA chegou: "A próxima década começa agora". Responda este e-mail com IA e eu te mando o convite.
A opinião do João
Passei 20 anos no mercado olhando fluxo antes de preço. Nesta semana o fluxo veio com protocolo na SEC. O S-1 da Anthropic mostra clientes gastando cerca de 9 vezes mais depois de um ano, enquanto a computação caiu de 251% da receita no 1º trimestre de 2025 para 48% no 2º trimestre de 2026. Mais barato de servir, e muito mais usado. É Jevons num documento protocolado na SEC.
O ponto continua sendo quem paga. A Ramp mediu o volume de tokens subindo 52% em quatro semanas, com gasto 23% maior, e a Apollo mostra que 80,4% dos maiores compradores de IA têm venture capital. O S-1 não diz quanto desses 9 vezes é dinheiro de VC comprando tokens de um laboratório financiado por VC.
A empresa diz que a distância entre o que o Claude consegue fazer e o quanto ele é usado é uma de suas maiores oportunidades de crescimento. Concordo, com um filtro. Quando quem paga tem receita própria, a demanda é orgânica. O resto eu precifico como funding.
João Piccioni, editor
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